Bethânia bem bonita

Postado em Uncategorized em Outubro 25, 2009 por capitaobacardi

Bethânia rebola, dança ao som e ao sabor dos pandeiros, elegante canta o amor dolorido e vingativo, o derramado e o delicado, o amor de cantadora. Behânia é sublime com “Queixa”, “A dama do cassino”, “Serra da Boa Esperança”, arrebatadora com “Explode coração”, certeira e espirituosa com “É o amor” e “Vai dar namoro”. O palco de Bethânia é de rosas, é preto com luzinha crepuscular, é roxo com luzinha da manhã, às vezes antipalco, às vezes superpalco, chão de rosas, banho de pétalas. Canta como se fosse a primeira vez e última, entoa preces santas e pagãs, amores santos e vãos, saudades doces e malsãs. Bethânia é rainha e menina dançando solta imaginado o riachinho de Santo Amaro, a terra batida, o tambor caboclo, encanta a viola, Bethânia tão bonita como nunca. Tão bonita como seu país sem os tiros nos alegres inocentes da nossa terra morena.

O velho coração do vampiro cansado

Postado em Uncategorized em Junho 14, 2009 por capitaobacardi

Depois de muito tempo e discos de uma banda que a maioria das pessoas pensava durar uma estação, Marilyn Manson (a banda) lança em 2009 o The high end of low. Até aí nada. Todas as críticas e opiniões falavam de um certo cansaço, repetição da banda, muito baseada na estética de choque do seu anticristo preferido, Marilyn Manson (o homem (sic) à frente da banda). Mas eis que The high end of low dá uma certa resposta a isso. Cansaço sim, mas é desse esgotamento que nasce uma certa joia opaca. Desde “Man that you fear” que a banda demonstrava ser competente em “baladas” climáticas, vampíricas, góticas ou seja lá que adjetivo pode ser dado à mistura das guitarras  chorosas de Twiggy Ramirez (recém-retornado à banda) e teclados. As “baladas” sinalizaram sua beleza gótica em Mechanical animals, como em “The speed of pain” e “Coma White”. Tempos depois, elas sumiram (The golden age of grotesque) ou não alcançaram o mesmo patamar (Eat me, drink me). Faltava alguém: Twiggy Ramirez. Ele é “A” presença nos riffs espertos de “Arma… geddon” e nas muitas belas (?) baladas de The high end, a sedutora “Devour”, a quase inovadora “Four husted horses” e a mais bem feita, “Into the fire”. O fim com “15″ é mais do que perfeito. E do cansaço renasce um anticristo velho de guerra.

Imagem do IPB

13 fantasmas

Postado em Uncategorized em Maio 25, 2009 por capitaobacardi

A leitura como fantasma que nunca se descola, mas assombra e acompanha. Volta e meia esses personagens me olham pelos cantos, assaltam a minha memória, aparecem nos meus escritos, na minha expressão, quem sabe até nos meus modos…

Primeiro fantasma: Enquanto agonizo, de Wiliam Faulkner: os pregos na caixão da mãe ainda posso ouvir, um jeito seco e pra dentro de sentir, uma cumplicidade trágica da família.

Segundo fantasma: O lobo da estepe, de Hermann Hesse: uma vez fui um raro e nunca mais escapei dessa sina, o devir-lobo.

Terceiro fantasma: O Cristo recrucificado, de Nikos Kazantzákis: as marcas, os estigmas, o sacrifício redime ou reduz a vida? Qual o sentido de transfigurar-se? Quando se performatiza alguém, quem está no palco?

Quarto fantasma: Orlando, de Virginia Woolf: há algum tempo eu podia dizer páginas inteiras desse livro, imaginar Orlando passeando com seus cachorros elegantes, quantas vidas dentro de uma só, de uma só solidão.

Quinto fantasma: Crônica da casa assassinada, Lúcio Cardoso: partindo do princípio de que todos somos pecadores, só nos restam o tabu e os complexos.

Sexto fantasma: Fronteira, de Cornélio Penna: partindo do princípio de que todos somos pecadores, só nos restam as sombras.

Sétimo fantasma: Angústia, de Graciliano Ramos: nunca se é conhecido de si mesmo.

Oitavo fantasma: A outra volta do parafuso, de Henry James: o autor fabricou outras narrativas mais perfeitas, mas é na imperfeição que a perturbação surge, terrível, um horror que brota das palavras.

Nono fantasma: O buraco na parede, de Rubem Fonseca: secura, objetividade malsã, precisão de médico clandestino.

Décimo fantasma: Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan: somente com Dalton se aprende o que significa o abismo da palavra.

Décimo primeiro fantasma: O coração nas trevas, de Joseph Conrad: como o que acontece pode nos escapar?

Décimo segundo fantasma: Perturbação, de Thomas Bernhard: difícil separação deste imenso manicômio chamado mundo.

Décimo terceiro fantasma: Esaú e Jacó, Machado de Assis: às portas do século XX, uma história do duplo, da fraternidade e da discórdia.

A diferença

Postado em Uncategorized em Fevereiro 21, 2009 por capitaobacardi

De um lado (no Paço Imperial), a exposição em homenagem a Burle Marx: percorre-se as galerias com um misto de ordem no olhar e admiração pela beleza geométrica, por vezes uma geometria sinuosa, talvez “tropical”, inventada por Burle para inventar um Rio de Janeiro ao mesmo tempo cosmopolita e marinho. Em meio aos seus estudos, que didaticamente depreendem-se dos textos que aclaram a relação do artista com a idéia abstrata e o plano formal do traço geométrico, sente-se o Rio em que a brisa morna passeia, a orla de Copacabana, as divisórias do Aterro, seus jardins, os do Palácio Gustavo Capanema que anunciam essa onda, tudo confortado pelas paredes do Paço.

De outro (no Centro Cultural da Justiça Federal), a exposição sobre a arte das ruas do mundo (Parede – I festival de Pôster-arte do Rio de Janeiro): fecha-se sobre dois cômodos e uma cela contígua. Nas primeiras, a audição do barulho dos carros joga o visitante contra/de encontro às paredes repletas de colagens, pinturas, decalques, letras, palavras, frases, tudo uma espécie de grito, pletora de significado que processa toda a arte pop (não a Marylin de Andy Warhol, mas os Marylin Manson à la Warhol, não o Ceci n’est pas une pipe (Isto não é um cachimbo), de Magritte, mas a frase escrita como legenda para uma metralhadora). Monalisas em figurinhas, Machados de Assis, Clarices Lispector, bocas, bonecas, travecas, tudo em triplas, múltiplas reproduções até a exaustão. Não há conforto, mas falta de ar, essa exposição da arte aponta para a rua, longe do mar, a rua de concretos, pontes, viadutos das megalópoles, a avenida Brasil no seu longo curso, onde esta arte está, se esconde, se prega nos muros. A diferença entre estes espaços, mas do que fazer emanar de seu fundo um diálogo, identidades, paradoxos, contrastes, exala, no seu seio, uma constelação de dúvidas.

A contrautopia disco

Postado em Uncategorized em Fevereiro 11, 2009 por capitaobacardi

Sinal dos tempos? Escapismo diante do labirinto da América anglo-saxônica? Efemeridade pop? Modinha? My generation? Zeitgeist?

A dance do Obama

Discopodcast

Postado em Uncategorized em Fevereiro 8, 2009 por capitaobacardi

O que ouvimos neste podcast:

1) “I see the light” – Crown heights affair

2) “Ugly people” – El coco

3) “E=MC2″ – Giorgio Moroder

4) “One to choose” – Black Devil Disco Club

5) “Remember” – Gino Soccio

6) “Connection disconnection” – Disco dream and the androids

7) “Etheric device” – Glass Candy

A miniutopia disco

Postado em Uncategorized em Fevereiro 8, 2009 por capitaobacardi

 

Passados 30 anos da “era disco” (aquela dos anos 70 do século passado, do lurex, da Donna Summer etc.), tudo o que aconteceu ali pode ser visto como um vão no tempo em que a alegria do corpo (ou o hedonismo das atitudes) era a lei. Quando os primeiros grupos de funk começaram a “dançar”, estava nascendo o que mais tarde seria moldado como música disco: baterias que seguem uma estrutura menos improvisada, fazendo uma base saltitante sempre (o groove), teclados histriônicos que mais tarde evoluíram para o arpeggio (a fragmentação inicial das sequências das notas no teclado, vide matéria sobre a “space disco” no rraurl), instrumentos de sopro realizando “fantasias” ao longo das letras minimalistas sobre amor na pista de dança, fuga do mundo chato, alienação no ritmo, fins de caso, amores não correspondidos etc. E claro, os vocais, na sua maioria femininos, ou dotados de efeitos, como o vocoder, que ocupou mais tarde lugar de destaque no synth funk e nas raízes do electro funk.

 

Falar de utopia parece muito ao se tratar de um fenômeno pop, mas, parece que é o próprio conceito filosófico que perde o sentido quando se afasta da história desse mesmo pop. Aliás, surpreendentemente, são os fenômenos que transformam os conceitos, até mesmo questionando-os. Dizer que a era dance foi efêmera é pouco, pois ali o que estava em jogo era ainda a postura utópica dos anos 60 encontrando a sua faceta mais fashion, consumista, muitas vezes obscura (a queda na cocaína, por exemplo), como se o hippismo dos anos 60 perdesse seu lugar para uma pequena alegria da noite, da última dança, da última chance (“Last dance, last chance for love…”, cantava Donna Summer) em que o corpo podia ser feliz, ao lado de um parceiro, no movimento frenético da disco music. Poucos foram os que entenderam a efervescência setentista, desabonando-a em oposição à sessentista. Um destes visionários é o jornalista Vince Alleti que conseguiu captar o encontro inusitado entre a música, a atitude disco e a linguagem desarticulada (ao primeiro olhar) dos hits de pista.

 

No filme de Spike Lee, O verão de Sam, vemos o pano de fundo da era disco na história do serial killer. Com o personagem latino de John Leguizamo, acompanhamos o ponto de fuga de uma era de desarticulação dos sonhos de peace & love, na pista de dança; o latino pobre pode ser um outro, ser o rei da festa. Em outro filme, o clássico Saturday night fever, o mote é bem parecido.

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Aos poucos, a linguagem supostamente desarticulada vai esboçando lugares paradisíacos (África como nos grupos Wild Fantasy e Tantra), futuristas, latinos (El coco), situações fantasiadas onde se dança e se ama por uma noite, por uma vida inteira, não importa, a disco music percebe que a eternidade dura uma música do dj. Muitos grupos, produtores e cantores surgem nessa época: Giorgio Moroder, Gino Soccio, Cerrone estão entre os papas da “tecnologização” da dance music, dando as bases do que seria a italo disco (disco music sintética, futurista, em que os instrumentos de sopro são substituídos por teclados viajantes e climas etéreos). Por outro lado, a “latinidad” está presente em grupos como El coco, Barrabas, Salsoul orchestra. Sem esquecer a doçura disco dos Bee Gees. Todos em busca não só da batida perfeita, mas da noite perfeita, do amor perfeito, da dança perfeita. Sem falar das capas dos discos, com mulheres de lábios carnudos usando batom vermelho, saias esvoaçantes, decotes, roupas minúsculas, tudo em clima de festa noctívaga da carne.

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A matriz “funk” da disco faz seus sucessos arrasadores com Chic, A taste of honey, Bohannon, Crown Heights Affair, Earth Wind & fire, KC & the sunshine band,  só para citar os conhecidos. A divas disco surgem e dão maior impulso para que as miniutopias se casem com as “minorias” sexuais, todas ao sabor de Donna Summer (que logo seria produzida pelo papa do italo Giorgio Moroder, vide “Love to Love you baby”), Gloria Gaynor, Gladys Knight e tantas. No Brasil varonil, a dance chega pelas Frenéticas, por Lady Zu, pelas coletâneas “Papagaio disco club”

Na virada dos anos 70 para os 80, muita coisa fugaz, interessante ou kitsch foi produzida, como o futurismo dos “Droids”, do “Disco Dream and the Androids”, também grupos como Munich Machine, Musique, Belle Epoque, Falco. Ainda nos anos 70. vemos iniciada a trilogia (?) do projeto do Black Devil Disco Club (bases obscuríssimas, tchurururus e tecladeira alienígena). Começa-se a se pensar claramente música não só como arte, mas como projeto, como hit, como produto.

 A dance music “pegou”, de Rolling Stones (“Miss you”) a Caetano Veloso (“Odara”), de Paul McCartney a Rod Stewart.

Em pleno 2008, a disco music é reatualizada e revitalizada (depois das raves, do electroclash e dos demais) com o projeto “Hercules & love affair”. O grupo, que une produtor, cantora trans e cantor convidado Antony, do Antony and the Johnsons, apostou na disco “de raiz”, lo-fi, e fez uma das melhores coisas de se ouvir dos últimos tempos, confira “Blind”.

Além disso, uma nova geração italo revisita o fim de festa, como o Chromatics e o Glass Candy. Mesmo Madonna se reinventou ao lançar novo olhar sobre a era disco em “Confessions on a dancefloor”. Quem ainda acha que a utopia dançante está morta, prepare-se para a volta, ou, se ela não acontecer, just dance, dance, dance. Bati.

Tanto tempo

Postado em Uncategorized em Janeiro 17, 2009 por capitaobacardi

Faz sentido este título (que compartilho com a Bebel Gilberto). Muito tempo sem estar aqui, estive ocupado e desocupado, mas já já volto, esta é apenas uma prévia. Enquanto se avizinham meus 32 anos, começo a pensar que parei de estar na casa dos porquês, para entrar na casa dos paraquês, também a lembrar que pouca coisa me incomoda realmente e que beber é bom, e que “Bedtime stories”, da Madonna rejuvenesceu, que eu gosto definitivamente da Grace Jones, que posso não assistir ao show do Radiohead, mas não resistir a Amy Winehouse, que ler Jorge Amado faz todo o sentido num calorão como esses, que somos todos tupiniquins, mas pelo menos não estamos na Faixa de Gaza, apesar de estarmos numa faixa perigosa, que 2009 será um ano como outro qualquer, cheio de surpresas, que eu amadureci, que meu gosto piorou e que eu sou agradecido por isso. Amém.

As mãos sujas da ficção

Postado em Uncategorized em Novembro 12, 2008 por capitaobacardi

Essa frase meio que ficou na minha mente por algum tempo depois de assistir a Última parada – 174. Outro pensamento ficou de pano de fundo: aquele em que Roland Barthes sugere a dúvida sobre se seria mesmo possível unir o sadismo ao nazismo no filme de Pasolini (Os 120 dias). Isso porque a questão é como dar a justa translação entre fato e ficção, o vão que se alastra da frase “baseado em uma história real”. Acho que as circunstâncias entre o nazismo e as mazelas do Brasil têm uma distância grande, mas não estou tão seguro de que a mão poderosa da ficção não possa mesmo minimizar as intensidades. Apostando que não, o filme de Bruno Barreto funciona como ferramenta de pensar as diversas vítimas da violência – em todos os níveis – da tragédia sem heróis que foi o episódio do ônibus 174. Nesse sentido, as falhas tão bem lembradas pela crítica de cinema são meros obstáculos para atingir o ponto do filme: o gosto amargo que o espectador experimenta de uma história contada cruamente, friamente, sem “moralismo”. Apostando que sim, até que ponto é o “moralismo” a fala perversa nestes casos? Até que ponto a ficção pode se ligar ao acaso, como opera a lógica da parcela ficcional do filme, à narratividade de um caso como esses. Assim, talvez uma perversão se instaurasse: o amargo sabor sentido pelo espectador, eu mesmo, seria menos culpa do filme do que da descoberta de que somente o inenarrável (que abrisse espaço ao explicável, ao opinativo, à capacidade de temer, de indignar-se, de agir) é capaz de lidar com o fato. E aí seria pensar que o documentário Ônibus 174 viria apenas confirmar, numa inversão próxima ao 11 de setembro, a tragédia, pensada na ficção, no coração dos nossos dias.

Em círculos

Postado em Uncategorized em Outubro 30, 2008 por capitaobacardi

A paixão de Ana (1969) é uma das coisas de que mais gosto do Bergman. É onde as inquietações anteriores e posteriores do diretor chegam à encruzilhada, mas, neste filme, os personagens não conseguem escolher caminhos: ou páram, ou rodam em círculos, ou se acidentam (externa e internamente). Pra quem um dia proferiu a frase “Amar é horrível ocupação”, este filme é reiterativo. Este é um filme sobre a paixão: seus personagens são levados a este beco sem saída de contarem apenas com suas vidas para algo que as ultrapassa e transpassa. Duas coisas são magníficas: a cena final, com o personagem de Max von Sydow (Andreas) andando em círculos, e a frase: “A coisa mais perversa para mim é tentar expressar a falta de expressão”. Sobre o filme, achei esta resenha explicativa interessante. O que admiro, e que neste filme está muito nítido, é a capacidade de Bergman de fazer ficções, de nunca deixar que o filme saia de seu sulco: escutamos o rumor do set de filmagem, os atores refletem sobre os personagens. E é exatamente isso, acho, essa independência, que deu a Bergman a possibilidade de cristalizar imagens-fetiche em Persona, Morangos silvestres, Gritos e sussurros só para ficar com alguns. O único filme assumidamente “biográfico”, ele só realizou no final da carreira: Fanny e Alexander. Mas isto não significa que a cada filme Bergman não pensasse em seus dramas pessoais (amores, política, arte). Porém, a marcação dos sulcos, antes de enquadrar os filmes, faz com que eles nos perfurem: numa das cenas de A paixão de Ana, vemos a personagem de Bibi Andersson (Eva) tocar um Lp na vitrola e, assim como Andreas, a agulha percorre os sulcos do Lp, andando no seu círculo, enquanto o assombro da paixão sai de sua fricção em forma de música. *

Falarei mais tarde do Portishead, mas deixo aqui, falando em filmes, o To kill a dead man, filme dirigido por Alexander Hemming e escrito, estrelado e musicado pelos Portishead.

Bati.