A paixão de Ana (1969) é uma das coisas de que mais gosto do Bergman. É onde as inquietações anteriores e posteriores do diretor chegam à encruzilhada, mas, neste filme, os personagens não conseguem escolher caminhos: ou páram, ou rodam em círculos, ou se acidentam (externa e internamente). Pra quem um dia proferiu a frase “Amar é horrível ocupação”, este filme é reiterativo. Este é um filme sobre a paixão: seus personagens são levados a este beco sem saída de contarem apenas com suas vidas para algo que as ultrapassa e transpassa. Duas coisas são magníficas: a cena final, com o personagem de Max von Sydow (Andreas) andando em círculos, e a frase: “A coisa mais perversa para mim é tentar expressar a falta de expressão”. Sobre o filme, achei esta resenha explicativa interessante. O que admiro, e que neste filme está muito nítido, é a capacidade de Bergman de fazer ficções, de nunca deixar que o filme saia de seu sulco: escutamos o rumor do set de filmagem, os atores refletem sobre os personagens. E é exatamente isso, acho, essa independência, que deu a Bergman a possibilidade de cristalizar imagens-fetiche em Persona, Morangos silvestres, Gritos e sussurros só para ficar com alguns. O único filme assumidamente “biográfico”, ele só realizou no final da carreira: Fanny e Alexander. Mas isto não significa que a cada filme Bergman não pensasse em seus dramas pessoais (amores, política, arte). Porém, a marcação dos sulcos, antes de enquadrar os filmes, faz com que eles nos perfurem: numa das cenas de A paixão de Ana, vemos a personagem de Bibi Andersson (Eva) tocar um Lp na vitrola e, assim como Andreas, a agulha percorre os sulcos do Lp, andando no seu círculo, enquanto o assombro da paixão sai de sua fricção em forma de música. *
Falarei mais tarde do Portishead, mas deixo aqui, falando em filmes, o To kill a dead man, filme dirigido por Alexander Hemming e escrito, estrelado e musicado pelos Portishead.
Bati.







