Essa frase meio que ficou na minha mente por algum tempo depois de assistir a Última parada – 174. Outro pensamento ficou de pano de fundo: aquele em que Roland Barthes sugere a dúvida sobre se seria mesmo possível unir o sadismo ao nazismo no filme de Pasolini (Os 120 dias). Isso porque a questão é como dar a justa translação entre fato e ficção, o vão que se alastra da frase “baseado em uma história real”. Acho que as circunstâncias entre o nazismo e as mazelas do Brasil têm uma distância grande, mas não estou tão seguro de que a mão poderosa da ficção não possa mesmo minimizar as intensidades. Apostando que não, o filme de Bruno Barreto funciona como ferramenta de pensar as diversas vítimas da violência – em todos os níveis – da tragédia sem heróis que foi o episódio do ônibus 174. Nesse sentido, as falhas tão bem lembradas pela crítica de cinema são meros obstáculos para atingir o ponto do filme: o gosto amargo que o espectador experimenta de uma história contada cruamente, friamente, sem “moralismo”. Apostando que sim, até que ponto é o “moralismo” a fala perversa nestes casos? Até que ponto a ficção pode se ligar ao acaso, como opera a lógica da parcela ficcional do filme, à narratividade de um caso como esses. Assim, talvez uma perversão se instaurasse: o amargo sabor sentido pelo espectador, eu mesmo, seria menos culpa do filme do que da descoberta de que somente o inenarrável (que abrisse espaço ao explicável, ao opinativo, à capacidade de temer, de indignar-se, de agir) é capaz de lidar com o fato. E aí seria pensar que o documentário Ônibus 174 viria apenas confirmar, numa inversão próxima ao 11 de setembro, a tragédia, pensada na ficção, no coração dos nossos dias.