A diferença
De um lado (no Paço Imperial), a exposição em homenagem a Burle Marx: percorre-se as galerias com um misto de ordem no olhar e admiração pela beleza geométrica, por vezes uma geometria sinuosa, talvez “tropical”, inventada por Burle para inventar um Rio de Janeiro ao mesmo tempo cosmopolita e marinho. Em meio aos seus estudos, que didaticamente depreendem-se dos textos que aclaram a relação do artista com a idéia abstrata e o plano formal do traço geométrico, sente-se o Rio em que a brisa morna passeia, a orla de Copacabana, as divisórias do Aterro, seus jardins, os do Palácio Gustavo Capanema que anunciam essa onda, tudo confortado pelas paredes do Paço.
De outro (no Centro Cultural da Justiça Federal), a exposição sobre a arte das ruas do mundo (Parede – I festival de Pôster-arte do Rio de Janeiro): fecha-se sobre dois cômodos e uma cela contígua. Nas primeiras, a audição do barulho dos carros joga o visitante contra/de encontro às paredes repletas de colagens, pinturas, decalques, letras, palavras, frases, tudo uma espécie de grito, pletora de significado que processa toda a arte pop (não a Marylin de Andy Warhol, mas os Marylin Manson à la Warhol, não o Ceci n’est pas une pipe (Isto não é um cachimbo), de Magritte, mas a frase escrita como legenda para uma metralhadora). Monalisas em figurinhas, Machados de Assis, Clarices Lispector, bocas, bonecas, travecas, tudo em triplas, múltiplas reproduções até a exaustão. Não há conforto, mas falta de ar, essa exposição da arte aponta para a rua, longe do mar, a rua de concretos, pontes, viadutos das megalópoles, a avenida Brasil no seu longo curso, onde esta arte está, se esconde, se prega nos muros. A diferença entre estes espaços, mas do que fazer emanar de seu fundo um diálogo, identidades, paradoxos, contrastes, exala, no seu seio, uma constelação de dúvidas.