A leitura como fantasma que nunca se descola, mas assombra e acompanha. Volta e meia esses personagens me olham pelos cantos, assaltam a minha memória, aparecem nos meus escritos, na minha expressão, quem sabe até nos meus modos…
Primeiro fantasma: Enquanto agonizo, de Wiliam Faulkner: os pregos na caixão da mãe ainda posso ouvir, um jeito seco e pra dentro de sentir, uma cumplicidade trágica da família.
Segundo fantasma: O lobo da estepe, de Hermann Hesse: uma vez fui um raro e nunca mais escapei dessa sina, o devir-lobo.
Terceiro fantasma: O Cristo recrucificado, de Nikos Kazantzákis: as marcas, os estigmas, o sacrifício redime ou reduz a vida? Qual o sentido de transfigurar-se? Quando se performatiza alguém, quem está no palco?
Quarto fantasma: Orlando, de Virginia Woolf: há algum tempo eu podia dizer páginas inteiras desse livro, imaginar Orlando passeando com seus cachorros elegantes, quantas vidas dentro de uma só, de uma só solidão.
Quinto fantasma: Crônica da casa assassinada, Lúcio Cardoso: partindo do princípio de que todos somos pecadores, só nos restam o tabu e os complexos.
Sexto fantasma: Fronteira, de Cornélio Penna: partindo do princípio de que todos somos pecadores, só nos restam as sombras.
Sétimo fantasma: Angústia, de Graciliano Ramos: nunca se é conhecido de si mesmo.
Oitavo fantasma: A outra volta do parafuso, de Henry James: o autor fabricou outras narrativas mais perfeitas, mas é na imperfeição que a perturbação surge, terrível, um horror que brota das palavras.
Nono fantasma: O buraco na parede, de Rubem Fonseca: secura, objetividade malsã, precisão de médico clandestino.
Décimo fantasma: Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan: somente com Dalton se aprende o que significa o abismo da palavra.
Décimo primeiro fantasma: O coração nas trevas, de Joseph Conrad: como o que acontece pode nos escapar?
Décimo segundo fantasma: Perturbação, de Thomas Bernhard: difícil separação deste imenso manicômio chamado mundo.
Décimo terceiro fantasma: Esaú e Jacó, Machado de Assis: às portas do século XX, uma história do duplo, da fraternidade e da discórdia.