Postado em Uncategorized em Fevereiro 8, 2009 por capitaobacardi
Passados 30 anos da “era disco” (aquela dos anos 70 do século passado, do lurex, da Donna Summer etc.), tudo o que aconteceu ali pode ser visto como um vão no tempo em que a alegria do corpo (ou o hedonismo das atitudes) era a lei. Quando os primeiros grupos de funk começaram a “dançar”, estava nascendo o que mais tarde seria moldado como música disco: baterias que seguem uma estrutura menos improvisada, fazendo uma base saltitante sempre (o groove), teclados histriônicos que mais tarde evoluíram para o arpeggio (a fragmentação inicial das sequências das notas no teclado, vide matéria sobre a “space disco” no rraurl), instrumentos de sopro realizando “fantasias” ao longo das letras minimalistas sobre amor na pista de dança, fuga do mundo chato, alienação no ritmo, fins de caso, amores não correspondidos etc. E claro, os vocais, na sua maioria femininos, ou dotados de efeitos, como o vocoder, que ocupou mais tarde lugar de destaque no synth funk e nas raízes do electro funk.
Falar de utopia parece muito ao se tratar de um fenômeno pop, mas, parece que é o próprio conceito filosófico que perde o sentido quando se afasta da história desse mesmo pop. Aliás, surpreendentemente, são os fenômenos que transformam os conceitos, até mesmo questionando-os. Dizer que a era dance foi efêmera é pouco, pois ali o que estava em jogo era ainda a postura utópica dos anos 60 encontrando a sua faceta mais fashion, consumista, muitas vezes obscura (a queda na cocaína, por exemplo), como se o hippismo dos anos 60 perdesse seu lugar para uma pequena alegria da noite, da última dança, da última chance (“Last dance, last chance for love…”, cantava Donna Summer) em que o corpo podia ser feliz, ao lado de um parceiro, no movimento frenético da disco music. Poucos foram os que entenderam a efervescência setentista, desabonando-a em oposição à sessentista. Um destes visionários é o jornalista Vince Alleti que conseguiu captar o encontro inusitado entre a música, a atitude disco e a linguagem desarticulada (ao primeiro olhar) dos hits de pista.
No filme de Spike Lee, O verão de Sam, vemos o pano de fundo da era disco na história do serial killer. Com o personagem latino de John Leguizamo, acompanhamos o ponto de fuga de uma era de desarticulação dos sonhos de peace & love, na pista de dança; o latino pobre pode ser um outro, ser o rei da festa. Em outro filme, o clássico Saturday night fever, o mote é bem parecido.
Aos poucos, a linguagem supostamente desarticulada vai esboçando lugares paradisíacos (África como nos grupos Wild Fantasy e Tantra), futuristas, latinos (El coco), situações fantasiadas onde se dança e se ama por uma noite, por uma vida inteira, não importa, a disco music percebe que a eternidade dura uma música do dj. Muitos grupos, produtores e cantores surgem nessa época: Giorgio Moroder, Gino Soccio, Cerrone estão entre os papas da “tecnologização” da dance music, dando as bases do que seria a italo disco (disco music sintética, futurista, em que os instrumentos de sopro são substituídos por teclados viajantes e climas etéreos). Por outro lado, a “latinidad” está presente em grupos como El coco, Barrabas, Salsoul orchestra. Sem esquecer a doçura disco dos Bee Gees. Todos em busca não só da batida perfeita, mas da noite perfeita, do amor perfeito, da dança perfeita. Sem falar das capas dos discos, com mulheres de lábios carnudos usando batom vermelho, saias esvoaçantes, decotes, roupas minúsculas, tudo em clima de festa noctívaga da carne.
A matriz “funk” da disco faz seus sucessos arrasadores com Chic, A taste of honey, Bohannon, Crown Heights Affair, Earth Wind & fire, KC & the sunshine band, só para citar os conhecidos. A divas disco surgem e dão maior impulso para que as miniutopias se casem com as “minorias” sexuais, todas ao sabor de Donna Summer (que logo seria produzida pelo papa do italo Giorgio Moroder, vide “Love to Love you baby”), Gloria Gaynor, Gladys Knight e tantas. No Brasil varonil, a dance chega pelas Frenéticas, por Lady Zu, pelas coletâneas “Papagaio disco club”
Na virada dos anos 70 para os 80, muita coisa fugaz, interessante ou kitsch foi produzida, como o futurismo dos “Droids”, do “Disco Dream and the Androids”, também grupos como Munich Machine, Musique, Belle Epoque, Falco. Ainda nos anos 70. vemos iniciada a trilogia (?) do projeto do Black Devil Disco Club (bases obscuríssimas, tchurururus e tecladeira alienígena). Começa-se a se pensar claramente música não só como arte, mas como projeto, como hit, como produto.
A dance music “pegou”, de Rolling Stones (“Miss you”) a Caetano Veloso (“Odara”), de Paul McCartney a Rod Stewart.
Em pleno 2008, a disco music é reatualizada e revitalizada (depois das raves, do electroclash e dos demais) com o projeto “Hercules & love affair”. O grupo, que une produtor, cantora trans e cantor convidado Antony, do Antony and the Johnsons, apostou na disco “de raiz”, lo-fi, e fez uma das melhores coisas de se ouvir dos últimos tempos, confira “Blind”.
Além disso, uma nova geração italo revisita o fim de festa, como o Chromatics e o Glass Candy. Mesmo Madonna se reinventou ao lançar novo olhar sobre a era disco em “Confessions on a dancefloor”. Quem ainda acha que a utopia dançante está morta, prepare-se para a volta, ou, se ela não acontecer, just dance, dance, dance. Bati.
Postado em Uncategorized em Janeiro 17, 2009 por capitaobacardi
Faz sentido este título (que compartilho com a Bebel Gilberto). Muito tempo sem estar aqui, estive ocupado e desocupado, mas já já volto, esta é apenas uma prévia. Enquanto se avizinham meus 32 anos, começo a pensar que parei de estar na casa dos porquês, para entrar na casa dos paraquês, também a lembrar que pouca coisa me incomoda realmente e que beber é bom, e que “Bedtime stories”, da Madonna rejuvenesceu, que eu gosto definitivamente da Grace Jones, que posso não assistir ao show do Radiohead, mas não resistir a Amy Winehouse, que ler Jorge Amado faz todo o sentido num calorão como esses, que somos todos tupiniquins, mas pelo menos não estamos na Faixa de Gaza, apesar de estarmos numa faixa perigosa, que 2009 será um ano como outro qualquer, cheio de surpresas, que eu amadureci, que meu gosto piorou e que eu sou agradecido por isso. Amém.
Postado em Uncategorized em Novembro 12, 2008 por capitaobacardi
Essa frase meio que ficou na minha mente por algum tempo depois de assistir a Última parada – 174. Outro pensamento ficou de pano de fundo: aquele em que Roland Barthes sugere a dúvida sobre se seria mesmo possível unir o sadismo ao nazismo no filme de Pasolini (Os 120 dias). Isso porque a questão é como dar a justa translação entre fato e ficção, o vão que se alastra da frase “baseado em uma história real”. Acho que as circunstâncias entre o nazismo e as mazelas do Brasil têm uma distância grande, mas não estou tão seguro de que a mão poderosa da ficção não possa mesmo minimizar as intensidades. Apostando que não, o filme de Bruno Barreto funciona como ferramenta de pensar as diversas vítimas da violência – em todos os níveis – da tragédia sem heróis que foi o episódio do ônibus 174. Nesse sentido, as falhas tão bem lembradas pela crítica de cinema são meros obstáculos para atingir o ponto do filme: o gosto amargo que o espectador experimenta de uma história contada cruamente, friamente, sem “moralismo”. Apostando que sim, até que ponto é o “moralismo” a fala perversa nestes casos? Até que ponto a ficção pode se ligar ao acaso, como opera a lógica da parcela ficcional do filme, à narratividade de um caso como esses. Assim, talvez uma perversão se instaurasse: o amargo sabor sentido pelo espectador, eu mesmo, seria menos culpa do filme do que da descoberta de que somente o inenarrável (que abrisse espaço ao explicável, ao opinativo, à capacidade de temer, de indignar-se, de agir) é capaz de lidar com o fato. E aí seria pensar que o documentário Ônibus 174 viria apenas confirmar, numa inversão próxima ao 11 de setembro, a tragédia, pensada na ficção, no coração dos nossos dias.
Postado em Uncategorized em Outubro 30, 2008 por capitaobacardi
A paixão de Ana (1969) é uma das coisas de que mais gosto do Bergman. É onde as inquietações anteriores e posteriores do diretor chegam à encruzilhada, mas, neste filme, os personagens não conseguem escolher caminhos: ou páram, ou rodam em círculos, ou se acidentam (externa e internamente). Pra quem um dia proferiu a frase “Amar é horrível ocupação”, este filme é reiterativo. Este é um filme sobre a paixão: seus personagens são levados a este beco sem saída de contarem apenas com suas vidas para algo que as ultrapassa e transpassa. Duas coisas são magníficas: a cena final, com o personagem de Max von Sydow (Andreas) andando em círculos, e a frase: “A coisa mais perversa para mim é tentar expressar a falta de expressão”. Sobre o filme, achei esta resenha explicativa interessante. O que admiro, e que neste filme está muito nítido, é a capacidade de Bergman de fazer ficções, de nunca deixar que o filme saia de seu sulco: escutamos o rumor do set de filmagem, os atores refletem sobre os personagens. E é exatamente isso, acho, essa independência, que deu a Bergman a possibilidade de cristalizar imagens-fetiche em Persona, Morangos silvestres, Gritos e sussurros só para ficar com alguns. O único filme assumidamente “biográfico”, ele só realizou no final da carreira: Fanny e Alexander. Mas isto não significa que a cada filme Bergman não pensasse em seus dramas pessoais (amores, política, arte). Porém, a marcação dos sulcos, antes de enquadrar os filmes, faz com que eles nos perfurem: numa das cenas de A paixão de Ana, vemos a personagem de Bibi Andersson (Eva) tocar um Lp na vitrola e, assim como Andreas, a agulha percorre os sulcos do Lp, andando no seu círculo, enquanto o assombro da paixão sai de sua fricção em forma de música. *
Falarei mais tarde do Portishead, mas deixo aqui, falando em filmes, o To kill a dead man, filme dirigido por Alexander Hemming e escrito, estrelado e musicado pelos Portishead.
Postado em Uncategorized em Outubro 29, 2008 por capitaobacardi
Olás,
Aí vai o primeiro e primal podcast. O programinha tem alguns defeitos, com a prática espero melhorar. Mas as músicas são boas: Portishead, Dizzee Rascal, Clementina, Ladytron e outros.
(Não é necessário fazer o download: o link te envia para o 4 shared, aí é só apertar a seta (play) do player embaixo do nome do arquivo, aumentar o volume e curtir).
Postado em Uncategorized em Outubro 23, 2008 por capitaobacardi
Amy visitando sua amiga no lixão de Jardim Gramacho. Escolheu o modelito de acordo com o ambiente da colega, que consideração amada Amy! Abaixo, Estamira recebendo Amy de braços abertos!
Postado em Uncategorized em Outubro 20, 2008 por capitaobacardi
Depois de um longo inverno, eis-me de volta para meus 0 leitores (talvez dois ou três). Ótimo, porque é para eles que eu escrevo. Mentira, é pra mim mesmo. Durante este tempo ouvi Nico. Também vi Bergman, mas isto deixo pra comentar depois. A sensação depois de ouvir Nico é a de que meio mundo das mulheres artistas interessantes de hoje (e um quarto pelo menos dos homens) devem suas idéias a esta mulher misteriosa, feita de gelo alemão (ou será húngaro? ou atlântido?). De Chelsea girl a Camera obscura, estão lá a divisão das sílabas musicais peculiares de uma Björk, o timbre metálico-grave de uma Sioux Sioux, a melancolia atmosférica de uma Beth Gibbons, mesmo um acento folk-abandonado das Cat Powers da vida. É perceptível a escolha de Nico por uma atmosfera “medieval”. Mesmo que as interrupções “pop”, que se mostram em seu álbum The end, teimem em aparecer, é em coisas como Chelsea girl, Desertshore e na absurdidade chamada Camera obscura (com a gloriosa ajuda do parceiro de Velvets desde a sua participação no clássico absoluto The Velvet Underground & Nico, a convite de Andy Warhol), John Cale, que dá pra sentir o arrepio da deusa da solidão. Nico morreu, dizem os comentários, em plena saúde, por um acidente tolo na época de seu tratamento pós-Rehab. O sol da melancolia a levou para sempre e não deixou que ela sorrisse, quebrando a tez de estátua. Para mais detalhes, indico essa pequena biografia:
Postado em Uncategorized em Setembro 9, 2008 por capitaobacardi
Olha aí, não vou escapar de dizer que eu vou (de novo) ao show da Madonna. Tô achando que ela vai mandar uma dublê ou playback (tipo a Britney), porque, aos 50, e no final de turnê, nunca se sabe, mas nada disso me impediu de febrilmente ficar quase doze horas numa fila e sair com um honroso convite de pista (queria mesmo o Vip, mas… há mais fila de idosos entre mim e a bilheteria do que supõe nossa vã madonnamania).
*Virou uma cafonalha só o VMA awards, bem ao gosto dos americanos, aquelas coisas hip hop que só eles acham graça e pagam milhões pros negões não virarem Belo, aqueles shows sem sal (apenas o começo do da Aguilera salvou), aquele apresentador uó, mas enfim, tava ali só pra ver (o que restou da) Britney. Tava bonita, deu a impressão que a MTV era boazinha e fez a festa só pra ela levar os prêmios. Mas até eu torci. Adoro a redenção dos ídolos pop, tá lendo, Amy?
*”Toxic” é clássico, sem dúvida. A Britney pós-In the zone é bem mais (produzida) interessante, hã?
*Jacques Brel inspirou meio mundo dos cantores dos 60/70 (Scott Walker, Van Morrison, Bowie, Cohen etc. O Scott, “formidable”, gravou muita coisa em inglês do Brel). Angela Roro gravou “Ne me quitte pas”. A cena vale mais que qualquer coisa: