Arquivo para novembro, 2008

As mãos sujas da ficção

Posted in Uncategorized on novembro 12, 2008 by capitaobacardi

Essa frase meio que ficou na minha mente por algum tempo depois de assistir a Última parada – 174. Outro pensamento ficou de pano de fundo: aquele em que Roland Barthes sugere a dúvida sobre se seria mesmo possível unir o sadismo ao nazismo no filme de Pasolini (Os 120 dias). Isso porque a questão é como dar a justa translação entre fato e ficção, o vão que se alastra da frase “baseado em uma história real”. Acho que as circunstâncias entre o nazismo e as mazelas do Brasil têm uma distância grande, mas não estou tão seguro de que a mão poderosa da ficção não possa mesmo minimizar as intensidades. Apostando que não, o filme de Bruno Barreto funciona como ferramenta de pensar as diversas vítimas da violência – em todos os níveis – da tragédia sem heróis que foi o episódio do ônibus 174. Nesse sentido, as falhas tão bem lembradas pela crítica de cinema são meros obstáculos para atingir o ponto do filme: o gosto amargo que o espectador experimenta de uma história contada cruamente, friamente, sem “moralismo”. Apostando que sim, até que ponto é o “moralismo” a fala perversa nestes casos? Até que ponto a ficção pode se ligar ao acaso, como opera a lógica da parcela ficcional do filme, à narratividade de um caso como esses. Assim, talvez uma perversão se instaurasse: o amargo sabor sentido pelo espectador, eu mesmo, seria menos culpa do filme do que da descoberta de que somente o inenarrável (que abrisse espaço ao explicável, ao opinativo, à capacidade de temer, de indignar-se, de agir) é capaz de lidar com o fato. E aí seria pensar que o documentário Ônibus 174 viria apenas confirmar, numa inversão próxima ao 11 de setembro, a tragédia, pensada na ficção, no coração dos nossos dias.

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