Arquivo para fevereiro, 2009

A diferença

Posted in Uncategorized on fevereiro 21, 2009 by capitaobacardi

De um lado (no Paço Imperial), a exposição em homenagem a Burle Marx: percorre-se as galerias com um misto de ordem no olhar e admiração pela beleza geométrica, por vezes uma geometria sinuosa, talvez “tropical”, inventada por Burle para inventar um Rio de Janeiro ao mesmo tempo cosmopolita e marinho. Em meio aos seus estudos, que didaticamente depreendem-se dos textos que aclaram a relação do artista com a idéia abstrata e o plano formal do traço geométrico, sente-se o Rio em que a brisa morna passeia, a orla de Copacabana, as divisórias do Aterro, seus jardins, os do Palácio Gustavo Capanema que anunciam essa onda, tudo confortado pelas paredes do Paço.

De outro (no Centro Cultural da Justiça Federal), a exposição sobre a arte das ruas do mundo (Parede – I festival de Pôster-arte do Rio de Janeiro): fecha-se sobre dois cômodos e uma cela contígua. Nas primeiras, a audição do barulho dos carros joga o visitante contra/de encontro às paredes repletas de colagens, pinturas, decalques, letras, palavras, frases, tudo uma espécie de grito, pletora de significado que processa toda a arte pop (não a Marylin de Andy Warhol, mas os Marylin Manson à la Warhol, não o Ceci n’est pas une pipe (Isto não é um cachimbo), de Magritte, mas a frase escrita como legenda para uma metralhadora). Monalisas em figurinhas, Machados de Assis, Clarices Lispector, bocas, bonecas, travecas, tudo em triplas, múltiplas reproduções até a exaustão. Não há conforto, mas falta de ar, essa exposição da arte aponta para a rua, longe do mar, a rua de concretos, pontes, viadutos das megalópoles, a avenida Brasil no seu longo curso, onde esta arte está, se esconde, se prega nos muros. A diferença entre estes espaços, mas do que fazer emanar de seu fundo um diálogo, identidades, paradoxos, contrastes, exala, no seu seio, uma constelação de dúvidas.

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A contrautopia disco

Posted in Uncategorized on fevereiro 11, 2009 by capitaobacardi

Sinal dos tempos? Escapismo diante do labirinto da América anglo-saxônica? Efemeridade pop? Modinha? My generation? Zeitgeist?

A dance do Obama

Discopodcast

Posted in Uncategorized on fevereiro 8, 2009 by capitaobacardi

O que ouvimos neste podcast:

1) “I see the light” – Crown heights affair

2) “Ugly people” – El coco

3) “E=MC2” – Giorgio Moroder

4) “One to choose” – Black Devil Disco Club

5) “Remember” – Gino Soccio

6) “Connection disconnection” – Disco dream and the androids

7) “Etheric device” – Glass Candy

A miniutopia disco

Posted in Uncategorized on fevereiro 8, 2009 by capitaobacardi

 

Passados 30 anos da “era disco” (aquela dos anos 70 do século passado, do lurex, da Donna Summer etc.), tudo o que aconteceu ali pode ser visto como um vão no tempo em que a alegria do corpo (ou o hedonismo das atitudes) era a lei. Quando os primeiros grupos de funk começaram a “dançar”, estava nascendo o que mais tarde seria moldado como música disco: baterias que seguem uma estrutura menos improvisada, fazendo uma base saltitante sempre (o groove), teclados histriônicos que mais tarde evoluíram para o arpeggio (a fragmentação inicial das sequências das notas no teclado, vide matéria sobre a “space disco” no rraurl), instrumentos de sopro realizando “fantasias” ao longo das letras minimalistas sobre amor na pista de dança, fuga do mundo chato, alienação no ritmo, fins de caso, amores não correspondidos etc. E claro, os vocais, na sua maioria femininos, ou dotados de efeitos, como o vocoder, que ocupou mais tarde lugar de destaque no synth funk e nas raízes do electro funk.

 

Falar de utopia parece muito ao se tratar de um fenômeno pop, mas, parece que é o próprio conceito filosófico que perde o sentido quando se afasta da história desse mesmo pop. Aliás, surpreendentemente, são os fenômenos que transformam os conceitos, até mesmo questionando-os. Dizer que a era dance foi efêmera é pouco, pois ali o que estava em jogo era ainda a postura utópica dos anos 60 encontrando a sua faceta mais fashion, consumista, muitas vezes obscura (a queda na cocaína, por exemplo), como se o hippismo dos anos 60 perdesse seu lugar para uma pequena alegria da noite, da última dança, da última chance (“Last dance, last chance for love…”, cantava Donna Summer) em que o corpo podia ser feliz, ao lado de um parceiro, no movimento frenético da disco music. Poucos foram os que entenderam a efervescência setentista, desabonando-a em oposição à sessentista. Um destes visionários é o jornalista Vince Alleti que conseguiu captar o encontro inusitado entre a música, a atitude disco e a linguagem desarticulada (ao primeiro olhar) dos hits de pista.

 

No filme de Spike Lee, O verão de Sam, vemos o pano de fundo da era disco na história do serial killer. Com o personagem latino de John Leguizamo, acompanhamos o ponto de fuga de uma era de desarticulação dos sonhos de peace & love, na pista de dança; o latino pobre pode ser um outro, ser o rei da festa. Em outro filme, o clássico Saturday night fever, o mote é bem parecido.

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Aos poucos, a linguagem supostamente desarticulada vai esboçando lugares paradisíacos (África como nos grupos Wild Fantasy e Tantra), futuristas, latinos (El coco), situações fantasiadas onde se dança e se ama por uma noite, por uma vida inteira, não importa, a disco music percebe que a eternidade dura uma música do dj. Muitos grupos, produtores e cantores surgem nessa época: Giorgio Moroder, Gino Soccio, Cerrone estão entre os papas da “tecnologização” da dance music, dando as bases do que seria a italo disco (disco music sintética, futurista, em que os instrumentos de sopro são substituídos por teclados viajantes e climas etéreos). Por outro lado, a “latinidad” está presente em grupos como El coco, Barrabas, Salsoul orchestra. Sem esquecer a doçura disco dos Bee Gees. Todos em busca não só da batida perfeita, mas da noite perfeita, do amor perfeito, da dança perfeita. Sem falar das capas dos discos, com mulheres de lábios carnudos usando batom vermelho, saias esvoaçantes, decotes, roupas minúsculas, tudo em clima de festa noctívaga da carne.

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A matriz “funk” da disco faz seus sucessos arrasadores com Chic, A taste of honey, Bohannon, Crown Heights Affair, Earth Wind & fire, KC & the sunshine band,  só para citar os conhecidos. A divas disco surgem e dão maior impulso para que as miniutopias se casem com as “minorias” sexuais, todas ao sabor de Donna Summer (que logo seria produzida pelo papa do italo Giorgio Moroder, vide “Love to Love you baby”), Gloria Gaynor, Gladys Knight e tantas. No Brasil varonil, a dance chega pelas Frenéticas, por Lady Zu, pelas coletâneas “Papagaio disco club”

Na virada dos anos 70 para os 80, muita coisa fugaz, interessante ou kitsch foi produzida, como o futurismo dos “Droids”, do “Disco Dream and the Androids”, também grupos como Munich Machine, Musique, Belle Epoque, Falco. Ainda nos anos 70. vemos iniciada a trilogia (?) do projeto do Black Devil Disco Club (bases obscuríssimas, tchurururus e tecladeira alienígena). Começa-se a se pensar claramente música não só como arte, mas como projeto, como hit, como produto.

 A dance music “pegou”, de Rolling Stones (“Miss you”) a Caetano Veloso (“Odara”), de Paul McCartney a Rod Stewart.

Em pleno 2008, a disco music é reatualizada e revitalizada (depois das raves, do electroclash e dos demais) com o projeto “Hercules & love affair”. O grupo, que une produtor, cantora trans e cantor convidado Antony, do Antony and the Johnsons, apostou na disco “de raiz”, lo-fi, e fez uma das melhores coisas de se ouvir dos últimos tempos, confira “Blind”.

Além disso, uma nova geração italo revisita o fim de festa, como o Chromatics e o Glass Candy. Mesmo Madonna se reinventou ao lançar novo olhar sobre a era disco em “Confessions on a dancefloor”. Quem ainda acha que a utopia dançante está morta, prepare-se para a volta, ou, se ela não acontecer, just dance, dance, dance. Bati.