Nem um pio

Há pouco tempo, o Twitter ficou mais popular como o espaço em que a liberdade de expressão chegava aos limites da democratização da opinião, mas também da educação, porque a liberdade de expressão foi (e é) aos poucos confundida com comentários maldosos, discriminatórios, ofensas gratuitas. Será realmente que essa forma cada vez mais popular de comunicação é realmente libertária? Em um ensaio antigo de Roland Barthes – Máximas e Reflexões de La Rochefoucauld (Novos ensaios críticos) -, o crítico reflete sobre a produção das máximas, uma espécie de frase “de jato” que condensa um dito espirituoso, resumitivo, afiado sobre a condição humana, poderíamos mesmo considerar essas máximas como as tataravós das frases de efeito do twitter. Na análise, Barthes esclarece como a forma da máxima, na verdade, se estabelece dentro de uma estruturação bastante controlada, que nada tem a ver com uma liberdade. Mais importante: a estrutura da máxima produz uma frase-espetáculo, que produz prazer no espectador, um prazer muito próximo da contemplação.
O elogio da forma breve está por trás da prática dos twitteiros. Não é de se estranhar que o twitter comece a combinar pares que em nada são aleatórios: celebridades instantâneas e capacidade de produzir frases dinamitadoras, popularidade contabilizada (quantos followers você tem?) e crescimento de uma cultura de mercado, brevidade e comportamentos de indiferença, de intolerância.
É possível que a proclamada liberdade de expressão, o pensamento livre possam ser expressos nos 140 toques do twitter? Em nome do mercado, da rapidez, dos domiínios contemporâneos, a resposta é afirmativa. Mas o limite não é antes de tudo um fechamento imposto ao curso do pensamento, ao fluxo, à longa cadeia argumentativa e reflexiva que deveria dar espaço a que o outro interviesse, se sentisse convidado a participar da discussão? Será que os 140 toques não estão produzindo uma comunicação entre surdos? Uma típica informação de consumo rápido?
Ainda segundo Barthes, a estrutura da máxima é comparável ao fechamento do coração… O grande argumento dos que se fecham é o famoso “unfollow me”. Mas esse argumento não é solução, é, ainda, uma forma justificada de intolerância. Quando o coração se fecha ao outro, toda liberdade é capturada pela solidão do consumo e do espetáculo de si mesmo.

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